Afinal o que é cultura?
Seguindo a explicação dos dicionários, CULTURA representa o conjunto de experiências, realizações e conhecimentos que caracterizam determinado povo, nação, região ou conjunto de conhecimentos de determinado indivíduo. Acrescentando, posso dizer que não só aquela nascida em seu próprio solo, mas também a junção de outras manifestações oriundas de outros países e povos no qual vão sendo adaptadas novas características e criando formas de identificação.
No Brasil, a cultura sobrevive nem sei como, pois não há nenhuma forma de incentivo político-econômico e nem interesse do Estado em atuar de forma direta para uma formação cultural nas escolas, comunidades, cidades ou em qualquer lugar onde exista um agrupamento de pessoas, que cujo objetivo é defender sua tradição e suas raízes. Muitos antropólogos, sociólogos e pesquisadores na área, lutam bravamente com a finalidade de manter ainda o que existe, pois como estudante de comunicação, entendo que preservar a CULTURA NACIONAL é um ato de manter a identidade cultural do nosso país, que hoje em dia remete meu pensamento a comparações do Brasil na época da República Velha, ligando aos conceitos de coronelismo, tenentismo e por aí segue.
É importante ressaltar que grande parte da nossa cultura sofreu influências de povos africanos e europeus, no entanto, jamais podemos esquecer os Índios, que antes mesmo do Brasil ser colonizado, já eram donos de nossas terras com sua cultura que até hoje está enraizada no cotidiano de todos nós em diversos campos.
As heranças adquiridas, ainda podem ser vistas no interior do Brasil, quando deparamos com os pequenos casebres principalmente no sertão, cujo telhado é feito de palha trançada, a medicina natural e o cultivo de plantas medicinais que utilizamos até hoje seja através da Homeopatia como nos tratamentos caseiros passados de geração a geração.
Na agricultura, além das hortas, o cultivo de alimentos tais como a farinha de mandioca, milho, verduras são frutos dessa herança deixada pelos indígenas que às vezes, nem damos conta de tamanha contribuição. A doma dos animais também é algo utilizado até hoje, principalmente nas regiões pantaneiras, pois enquanto os índios demoravam meses para domesticar os animais, a população da região Central do Brasil, demoravam três dias, pois utilizavam do recurso da violência, enquanto os índios tratavam com uma doçura e afago peculiar como forma de respeito e crença, pois se dizia que se virar o rastro do animal no sentido da aldeia, o mesmo retornava ao local. Crenças e mitos do interior como, por exemplo, o boi tatá, considerado o mistério da noite, está associado a esta cultura.
A pesca também é adotada como herança indígena e caso fosse realizar uma pesquisa mais aprofundada, muitas outras influencias seriam descobertas. Ressaltando que a prática da pesca em canoas, no qual os índios pescavam em pé, ainda é muito presente na região pantaneira do Brasil.
Além das aulas, tive a oportunidade de pesquisar em livros, até pelo projeto de conclusão do curso no final deste ano, tenho que concordar com a afirmativa do professor Ivan Proença “que a civilização indígena foi marcada pelo espírito humanitário, pena saber que atualmente não existe mais cultura indígenas, praticamente todas estão descaracterizadas.”
No mundo infantil, tivemos grandes influências também, como nas brincadeiras ao ar livre, bem marcadas no interior do Brasil que se tornou o centro da herança cultural infantil indígena, nas brincadeiras de pular corda, amarelinha, pique esconde, peteca. As meninas faziam bonecas de palha sem ter nenhum conhecimento das mulheres européias, os meninos extraiam borracha das árvores para fazer bola. Quem nunca brincou de pião, boneca e bola? Mas sempre esquecemos talvez por falta de conhecimento que tudo isso é fruto da cultura deixada pelos índios.
No interior do Nordeste ainda é muito presente as bonecas de palha, as cuias, esculturas de barro, mas de forma história, é puro fruto da herança indígena, ressaltando que durante as brincadeiras, não comemoravam o vencedor, ou seja, todos eram vencedores, as crianças não eram maltratadas pelos adultos e não existia palavrão como forma de ofensa no primeiro vocabulário.
Outro fator que jamais devemos esquecer são as Toponímias (que significa dar nome as regiões e aos locais dos acidentes geográficos. Como exemplo, os bairros de Jacarepaguá, Bracuhy, Tijuca, pois eles criavam tais nomes identificando os locais, como forma de demarcar, por residir na cidade de Angra dos Reis, pude comprovar de perto o vocabulário Tupi-Guarani, pois meus ancestrais maternos pertenciam a esta linhagem que com o tempo foi se perdendo e devido ao grande processo cultural que está sendo dissolvido pelo capitalismo que contribui bastante para a expansão das grandes cidades e cria automaticamente um canal para as influências externas.
Agora falando um pouco das primeiras manifestações Afro no Brasil, tenho como exemplo o Semba de Roda, que eram realizados pelos negros Bantes e Nagôs, aproximadamente no ano de 1560. Danças, cantos, batuques e palmas que tinha sempre alguém ao centro da roda, dançando e tinham como expectadores, os senhores de engenho e suas famílias. Importante ressaltar que o indivíduo ficara situado ao centro da roda, dançava até que todos dançavam o Corta Jaca e Separa o Visgo, que comparados a atualidade, podem ter uma associação as passistas das escolas de samba.
O Semba era proibido pelos senhores de engenho entre “homens e mulheres”, portanto, era apresentado somente por mulheres. Hoje, chama-se Umbigada, porque o centro é o umbigo e as negras chamavam as outras para dançar ao centro da roda encostando um umbigo no outro.
Outro grande momento foi quando surgiu o Quebra-Coco, em Alagoas, num lugar chamado Pilar, na virada do século XVI para o XVII. A dança surgiu pelo fato dos negros terem de quebrar o coco na praia, batendo um com o outro, dando origem ao famoso Quebra Coco da Beira da Praia, com isso, foram criadas letras e com o passar do tempo passou a chamar-se Embolada do Coco.
O forró também não pode ficar esquecido, pois a partir dele originou-se o Xote, o Xaxado e o Baião. Os negros catavam principalmente nos canaviais quando tinham que plantar e colher, canções lentas que acompanhavam os ventos, daí surgem As Canções de Trabalho, conhecida por vários estudiosos como a Canção dos Canaviais.
No plano religioso, os negros misturados com os brancos, começaram a praticar o misticismo, no entanto, os negros eram colocados no tronco e apanhavam muito, visto que, para os senhores de engenho era a prática do Vodú.
Os negros oprimidos iniciaram as práticas do misticismo com muito jogo e dança, para que não fosse percebido pelos senhores. Um dos motivos pode-se considerar a falta de conhecimento da língua dos escravos como forma de resistência ao misticismo afro que hoje, está firme como a de formação branca.
Como herança também temos o Jongo, que tradicionalmente surgiu nas regiões do Norte-Fluminense, Minas Gerais e Espírito Santo. No Rio de Janeiro, temos o famoso e aclamado Jongo da Serrinha, no tradicional do bairro de Madureira e considerado o mais importante do Brasil.
Dando continuidade a Primeira Fase da Cultura Nacional, podemos inserir também o surgimento do Teatro, que através de Arthur Azevedo, considerado o fundador do Teatro Musical, que foi transformado em Teatro de Revista. Nos anos 30 e 40, a Praça Tiradentes era o berço do Teatro de Revista, pois não havia trama, cada enredo era diferente do outro, como protagonista, havia sempre uma Vedete que cantava, dançava e interpretava. Cada traje era um ato, a música era ao vivo, com temas audaciosos, com fortes críticas políticas, apenas para título de informação esse tipo de teatro, tem como base, o Teatro Francês e como fundador do teatro Nacional, temos Martins Pena.
Também existiu o Teatro do Povo, o Mamulengo, que foi exibido pela primeira vez pela Companhia de Teatro de Bonecos da Itália, apresentado ao ar livre, numa feira típica de Recife. Hoje é muito comum nos depararmos com esse tipo de atuação no Centro do Rio, mais precisamente no bairro da Lapa.
No campo da Literatura, tivemos José de Alencar que escreveu romances fantásticos como O Guarani, Ubirajara e Iracema, que tinham sempre como protagonistas os índios, inseridos pela primeira vez na ficção nacional, graças a este grande romancista.
Castro Alves também, através dos seus poemas de amor, aproveita para escrever poesias de denúncia da Guerra do Paraguai, o processo de escravidão, as desigualdades sociais, aprendendo a improvisar com os cantadores, fundou uma poesia nacional que transcendeu o romantismo vigente. Através de seus escritos, foi reconhecido como o Poeta dos Negros, embora mantendo uma linha romântica que enaltecia a Cultura Brasileira, a nossa nacionalidade que hoje anda esquecida por muitos de nós.
Na música aparecem os primeiros gêneros da MPB, que através do movimento muito freqüente entre as famílias nobres da sociedade, que traziam da Europa conjuntos e bandas para se apresentarem em suas residências e festas promovidas pela alta sociedade. Através dessas influências externas, surgem a Polca, o Maxixe, a Mazurca.
O primeiro gênero popular unicamente carioca é o CHORO e considerado o segundo mais importante do Brasil. A Polca européia, se junta com o ritmo africano chamado XOLO que existia aqui. Logo, o CHORO era considerado o mais erudito da MPB, permanecendo nesta fronteira entre o erudito e o popular. O Maxixe, uma dança de base rítmica afro, indecente e proibida nos salões de bailes, tendo maior predominância nas Gafieiras.
A Marcha é o único gênero que não tem influência afro. Surge por influência das bandas militares. Já o carnaval surge através de duas manifestações populares: a primeira conhecida como Zé Pereira, um senhor português que nos dias de carnaval saia pelas ruas da cidade, trajando sapato, meia e camiseta. No ano seguinte, os cariocas começaram a segui-lo e talvez, a partir daí, originaram os blocos de rua, que eram chamados de blocos de sujos, o bloco da improvisação, do vai como pode.
Os caracterizados ENTRUDOS eram rapazes que saíam as ruas, com bisnagas com limão de cheiro para galantear as moças, alguns usavam máscaras para não serem reconhecidos. Os grandes desfiles de fantasia, o banho de mar na praia do Flamengo, foram sendo ampliados e deram origem aos RANCHOS que eram bem parecidos com as escolas de samba, apresentavam como desfiles poéticos, mais lentos, pacíficos, com nome de flor. O mais antigo deles chama-se REZENDÁ.
Como parte da cultura, temos as cantorias e os repentes que tiveram origem nos trovadores franceses que no momento em que iniciam o processo de improvisação, passam a ser chamados de REPENTISTAS.
O CORDEL, como poesia escrita, originário da Espanha e hoje é considerado parte da nossa Cultura Nacional Brasileira, perdendo suas referências com a Europa. Cordel eram poesias de amor, da natureza e funcionava também como forma de alfabetizar o povo do interior do Nordeste, em áreas como a Biologia, Geografia, História, etc.
A partir deste conteúdo, ficam as pequenas sementes, pequenos registros de uma parte da nossa cultura tão rica e pouco reconhecida pelo seu povo.